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Longe da badalação de Campos do Jordão, as cidades de Santo Antônio do Pinhal e São Bento do Sapucaí formam um roteiro de moto para quem procura sossego, contato com a natureza e boa gastronomia neste inverno

A estrada da Campista parte do centro de São Bento do Sapucaí (SP) e leva à famosa Pedra do Baú. Localizada a 1.950 metros acima do nível do mar, o imponente paredão de pedra é símbolo da pequena cidade e destino certo para todo montanhista que se preze. São cerca de 20 km de asfalto serpenteando pelas montanhas que convidam para serem percorridos de moto. Embora grandalhona, a Harley-Davidson CVO Street Glide e seu motor V2 de 1.800cc oferecem torque e conforto de sobra para enfrentar a elevação de quase 1.000 metros do seu início à base da rampa de voo livre existente no local. Tudo, claro, sem pressa e com diversas paradas para apreciar a bela paisagem da Serra da Mantiqueira.

Coladas em Campos do Jordão (SP), mas distante da badalação da famosa estância vizinha, os municípios paulistas de São Bento do Sapucaí e Santo Antônio do Pinhal formam um destino interessante para quem busca contato com a natureza e sossego nesse inverno. Próximas das grandes capitais do sudeste, São Paulo, Rio e BH, as duas cidadezinhas da Mantiqueira ainda oferecem charmosas pousadas e uma boa e variada gastronomia.

Outro ingrediente fundamental que torna a pacata São Bento do Sapucaí atraente para um roteiro de moto no final de semana são as sinuosas estradas. Em geral bem conservadas, as rodovias de mão dupla que cortam a Mantiqueira na divisa entre Minas Gerais e São Paulo exigem atenção em troca de muita diversão em suas incontáveis curvas.

estação Eugênio Lefèvre

História com charme e sabor

Ao desviar do agito de Campos do Jordão, o mototurista logo se depara com a charmosa Estação Eugênio Lefèvre, na entrada de Santo Antônio do Pinhal. Inaugurado em 1916, o prédio original está bem conservado e é uma parada do trem turístico da Estrada de Ferro Campos do Jordão que faz passeios diários. Se der sorte, pode-se apreciar a lenta manobra do trem no virador que há no local. Aproveite para apreciar os bolinhos de bacalhau vendidos na estação e feitos de acordo com a receita portuguesa, ou seja, com mais batata do que farinha. O Mirante da Santa é outro motivo para fazer uma parada e apreciar a primeira de muitas belas vistas da Serra da Mantiqueira.

Depois do tira-gosto luso, reduza a velocidade – há radares no percurso e também no centro de Santo Antonio do Pinhal – e estacione a moto na rua principal da cidade: acredite, não será difícil encontrá-la. Há a praça do artesão e a Igreja Matriz de Santo Antônio de Pádua, que dá nome à cidade. A igreja é rodeada de lojas de produtos caseiros, como queijos, mel e pinhões que dão nome à cidade.

SANTO ANTONIO DE PADUA

Se a fome bater, há um ajeitado boulevard com diversos restaurantes que servem desde pratos com truta, carnes, massas e até a boa e simples comida da roça, como o leitão a pururuca. Com a energia renovada, vale a pena pegar a estrada do Barreiro e conhecer o atelier do artesão Eduardo Miguel. Engajado na defesa do planeta, o artista transforma galhos, troncos e sementes em úteis e belos objetos.

A última trincheira

Outra charmosa cidadezinha da Mantiqueira, São Bento do Sapucaí fica a 28 km de Santo Antônio do Pinhal. Uma curiosidade é que para se chegar a São Bento é preciso sair do Estado de São Paulo, atravessar uma “pontinha” de Minas e depois voltar às terras paulistas por uma deliciosa estrada.

Essa posição geográfica estratégica fez a cidade ter um importante papel na Revolução Constitucionalista de 1932: os soldados da trincheira de São Bento só receberam a ordem do cessar fogo dois dias após o final das batalhas. Se quiser saber mais sobre essa história basta dar um dedo de prosa com os moradores locais ou ainda visitar o pequeno museu da Revolução de 1932, uma casa de pau a pique que guarda alguns objetos históricos na Pousada do Quilombo.

Uma das melhores acomodações na cidade, a pousada está localizada no bairro de mesmo nome: o local reuniu os escravos alforriados em 1888 nas terras doadas por um fazendeiro local. A praça do bairro é organizada como um quilombo com as pequenas casas em volta da Igreja, que antes era frequentada pelos negros. Ali mesmo fica o ateliê de Ditinho Joana, renomado artesão local. Vale a pena visitá-lo para apreciar as belas esculturas em madeira e ouvir boas histórias sobre a cidade.

Um passeio pelo centro da cidade revela diversas construções antigas que ajudam a dar um ar simples e aconchegante à cidade. A Igreja Matriz, construída em taipas de pilão em 1853 e reformada em 1916, tem o charme interiorano e está muito bem conservada. Vale a visita.

Igreja matriz de são bento sapucai

Terras altas da Mantiqueira
Mas a grande atração de São Bento está mesmo no alto. De diversos pontos da cidade é possível avistar a Pedra do Baú. A estrada asfaltada que segue quase até a base da formação rochosa é por si só uma atração: com curvas fechadas e belas paisagens, além de cachoeiras e até mesmo alguns animais silvestres no trajeto. Antes de subir, aproveite para saborear uma truta recheada em alguns dos restaurantes no caminho.

Destino de muitos escaladores e aventureiros, o Baú fica em um complexo cercado por duas outras pedras: Bauzinho e Ana Chata. O pico, a 1950 metros acima do nível do mar e com cerca de 400 m de altura, pode ser visitada por degraus e grampos que são chumbados com cimento em furos na rocha. Vista roupas mais quentes, pois o vento lá em cima é mais forte e a temperatura, mais baixa.

De um riacho lá em cima vem a água para outra atração recente na cidade, a cerveja artesanal “Bauzera”, que tem fortes raízes nas montanhas. Afinal o mestre cervejeiro Michel Frechou carrega o sobrenome de um dos mais famosos escaladores do Brasil. Com apoio do pai Eliseu, Michel criou há três anos a Bauzera que produz quatro variedades de cerveja no Bairro Serrano, onde fica também a Montanhismus, escola de escalada.

serra mantiqueira

Guia
Atrações
– Estação de trem Eugênio Lefèvre – Há passeios nos trens turísticos até Campos do Jordão e Pindamonhangaba, mas são bastante concorridos e é preciso fazer reserva com bastante antecedência. Há uma pequena vila ferroviária e o Mirante da Santa no local, além do famoso bolinho de bacalhau. Rodovia Floriano Rodrigues Pinheiro. Mais informações, acesse www.efcj.sp.gov.br

– Igreja Matriz de Santo Antônio de Pádua – Construída em madeira em 1811, a igreja foi reconstruída em 1924 no mesmo local. Abriga festas religiosas, como a de Santo Antônio em junho e também Corpus Christi. Praça Mons. Azevedo, 50 – Centro – Santo Antônio do Pinhal.
– Ateliê Eduardo Miguel – O artista utiliza materiais reaproveitados, como troncos, galhos e sementes, e os transforma em móveis, luminárias e esculturas. Estr. do Barreiro, s/n, Santo Antônio do Pinhal.

– Igreja Matriz São Bento – Única construção em tipas de pilão, feita em 1853, o prédio atual foi finalizado em 1916. Vale a pena visitar seu interior e ver a fenda que mostra a técnica construtiva. Praça Cônego Bento de Almeida, São Bento do Sapucaí.

– Ateliê Ditinho Joana – o ex-lavrador Benedito da Silva Santos, hoje o famoso escultor em madeira Ditinho Joana largou a enxada para dar belas formas a madeiras de lei. Seu ateliê fica na Praça do Bairro Quilombo em São Bento do Sapucaí.

– Cervejaria Bauzera – O mestre cervejeiro é Michel Frechou, filho do famoso escalador Eliseu. Utilizando água da Serra da Mantiqueira, a cervejaria produz quatro variedades de cerveja artesanal, entre elas a única Black IPA do Brasil. Uma vez por mês há visitação aberta ao público. No local também fica a Montanhismus, escola de escalada de Eliseu Frechou que organiza passeios e dá aulas na Pedra do Baú. Estrada Serranos, 1505 – São Bento do Sapucaí.

– Pedra do Baú – É possível ir de carro seguindo as placas para a rampa de voo livre da Pedra do Baú, pois a estrada é asfaltada até 5 km antes da base. Mas também é possível fazer caminhadas e até mesmo escaladas no local. Para isso procure um guia e/ou operador local. São Bento do Sapucaí.

viagem de moto

TEXTO: Arthur Caldeira/ Agência INFOMOTO
FOTOS: Mario Villescusa/ Agência INFOMOTO