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Equipada com motor V2 de 180 cavalos de potência, naked austríaca tem eletrônica de sobra para domar seu desempenho bestial

 

Todos se assustam ao encarar a KTM 1290 Super Duke R. Afinal, o visual marcado por linhas angulosas e uma aparência musculosa transmite a impressão de que ela está pronta ao ataque. A desconfiança também se originou no nome do protótipo – “The Beast” (a fera) – que deu origem a essa mais recente representante da famosa linhagem Duke da fábrica austríaca. Com o slogan “Liberte a Fera” e o título de naked mais potente do mundo, com 180 cv, a 1290 Super Duke R assusta até mesmo desligada.

Recheada de controles eletrônicos e com conjunto ciclístico de primeira linha, essa super naked de R$ 79.000 é mais “domesticada” do que parece. Desde que, é claro, respeite-se os quase 15 kgf.m de torque e a potência de sobra. Para minha sorte, tive três oportunidades para domá-la na pista e nas ruas. Confira o “adestramento” da Super Duke R em três atos.

 

Na úmida Tailândia

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O primeiro contato com a fera não poderia ter sido mais inadequado. Após 25 horas de voo (sem contar as escalas) e mais três na estrada, eu chegava ao Parque Nacional Khao Yai, distante 200 km de Bancoc, capital da Tailândia, para no dia seguinte acelerar a KTM 1290 Super Duke R na pista de Bonanza, um autódromo local. Nosso ilustre instrutor Jeremy McWilliams, ex-piloto norte-irlandês famoso pelo seu estilo agressivo, participou ativamente do desenvolvimento da Super Duke e avisou: “nesta pista não é possível abrir todo o acelerador, pois o asfalto e as áreas de escape estão bem longes dos padrões internacionais de segurança”.

A Super Duke R é equipada com uma versão anabolizada do LC8, o motor de dois cilindros em “V” a 75°, DOHC com arrefecimento líquido. Diâmetro e curso foram aumentados para alcançar 1.301 cm³ de capacidade. Com isso, é capaz de gerar até 180 cv de potência máxima a 8.870 rpm e 14,7 kgf.m de torque máximo a 6.500 rpm.

Suando dentro do macacão com o clima quente e úmido e ainda meio confuso pelo fuso de 10 horas, respeitei as recomendações do experiente piloto nas primeiras voltas – dosei a mão e deixei todos os controles eletrônicos – ABS, mapa do acelerador e motor e controle de tração – atuantes. Mas precisava ver do que esse motor era capaz. E me surpreendi. Na reta de cerca de 600 m com a 1290 Super Duke R alinhada “torci” o cabo. A frente levantou, quando engatei a quarta marcha e a aceleração mais parecia um chute no estômago. O painel digital marcava 200 km/h ao final da reta. Quando então os bons freios – pinças radiais Brembo monobloco mordem dois discos de 320 mm, na dianteira, e uma pinça dupla atua sobre um disco simples de 240 mm, na traseira – pareciam reduzir com segurança a leve naked. O peso a seco declarado é de 189 kg e abastecida a Super Duke R fica em torno dos 214 kg, marca próxima a de muita superesportiva.

Ao passar das voltas a confiança aumentava para acelerar cada vez mais cedo nas saídas de curva. A roda traseira parecia desgarrar um pouco, mas sem tirar a potente naked da trajetória. Pura diversão.

 

Em casa: teste de verdade

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Meu segundo encontro com a bestial 1290 Super Duke R já foi mais amistoso: estávamos eu e ela na pista de testes da Pirelli, localizada em Sumaré, interior de São Paulo. Embora o sol forte e o calor incomodassem, não estava atordoado pelo fuso e a pista é bem mais segura.

Devidamente equipado, logo nas primeiras voltas confirmei a impressão inicial: o conjunto ciclístico é de primeira linha. O quadro tubular em treliça é feito em cromo-molibdênio para garantir leveza e rigidez na dose certa. Em conjunto com as boas suspensões WP – na dianteira, garfo telescópico invertido, ajustável na compressão e retorno; na traseira um monobraço de alumínio com amortecedor a gás – garantem estabilidade e uma maneabilidade impressionantes.

Nas curvas de alta velocidade, bastava se posicionar sobre a moto – tarefa facilitada pelo formato esguio do tanque, com 18 litros de capacidade, junto às pernas –, jogar o corpo, escolher a trajetória e deitar com segurança até o limite das pedaleiras. No cotonete da pista da Pirelli, uma curva mais fechada, a naked mostrava-se igualmente estável. Sem exageros, essa fera KTM é uma das motos mais “obedientes” que já pilotei: o conjunto “conversa” com o piloto e não dá sustos. É como se um leão pudesse ser seu bicho de estimação: nervosa e arisca, mas que, com carinho, pode ser uma boa companheira.

 

Terra da garoa

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Mas o destino ainda nos reservava mais um encontro. Mas quis que fosse em um dia de garoa na cidade de São Paulo. Com asfalto molhado e trânsito carregado, apelei para a eletrônica: optei pelo modo “Rain”, entre os três modos de pilotagem disponíveis. Dessa forma, há apenas 100 cavalos de potência, controle de tração e ABS funcionando e uma resposta mais suave do acelerador. Tudo isso facilmente ajustável por meio de botões no punho esquerdo e informado no completo painel, que traz duas telas de LCD com informações digitais e um conta-giros analógico.

Com a ajuda da tecnologia e do baixo peso, a Super Duke R comporta-se como uma moto de 600cc nessas condições. Ponto para a eletrônica embarcada e também para a dócil resposta do acelerador eletrônico, bem progressivo. O guidão largo esbarra nos retrovisores, mas facilita “costurar” entre os carros da Avenida 23 de Maio, que liga as zonas Sul e Norte da capital paulista, congestionada em uma manhã de segunda-feira.

Mais tarde, voltei ao modo Street, que libera os 180 cv, porém de uma forma suave. O controle de tração e ABS continuam atuando – aliás, uma “falha” da naked da KTM é não permitir que se ajuste o nível do controle de tração, é possível apenas desligá-lo. Já os freios ABS trazem um divertido modo “supermotard”, que desativa o sistema somente na roda traseira e permite derrapagens divertidas antes de entrar nas curvas.

Mas o acelerador eletrônico é tão bem dosado que, mesmo na cidade com o piso seco, rodei apenas no modo “Sport” com toda a cavalaria disponível da forma mais instantânea possível. Garantia de levantar um pouco a roda dianteira em acelerações mais empolgadas, embora o controle de tração não permita empinar. Para isso seria necessário desativá-lo.

 

Irracional

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Diverti-me como nunca ao guidão da KTM 1290 Super Duke R. Bonita, ágil, rápida e estável: o que mais se pode querer de uma motocicleta? Se a sua ideia é ter um brinquedão e a conta bancária permitir, será difícil encontrar outro modelo que o faça sorrir tanto. Mas é bom lembrar que a Super Duke R não é lá dos modelos mais confortáveis: o banco é estreito e fino, a proteção aerodinâmica é praticamente nula e, importada, seu preço está acima das concorrentes, como BMW S 1000R, vendida a R$ 53.900, na versão completa, inclusive com suspensões semi-ativas ajustadas eletronicamente não disponíveis na KTM.

Optar pela KTM 1290 Super Duke R é uma decisão, na verdade, quase irracional: uma naked com 180 cv capaz de atingir quase 300 km/h não me parece nada razoável, embora seja uma das motocicletas mais emocionantes que já pilotei. Mas quem disse que a fera age com razão?

TEXTO: Arthur Caldeira/ Agência INFOMOTO
FOTOS: Mario Villaescusa / Agência INFOMOTO e Divulgação/KTM